Todo destino turístico de sucesso enfrenta o mesmo risco em algum momento.
Cresce rápido demais e destrói exatamente o que o tornou atrativo. Praia descaracterizada, comunidade deslocada pela especulação, patrimônio natural degradado pelo excesso de visitação.
Turismo sustentável não é uma pauta ambiental à parte. É o mecanismo de gestão que evita esse ciclo.
Como secretário de Turismo do Rio Grande do Sul, trato esse tema como questão de planejamento, não de discurso. Um destino que cresce sem critério de capacidade tende a se esgotar em uma ou duas décadas.
Um destino que cresce com governança sobre esse limite tende a se manter relevante por gerações.
O que é turismo sustentável, tecnicamente?
Turismo sustentável não é sinônimo de ecoturismo, e essa confusão é comum. A definição de referência, elaborada pela Organização Mundial do Turismo, trata o conceito como aquele ecologicamente suportável no longo prazo, economicamente viável e socialmente equitativo para as comunidades locais.
As três dimensões precisam existir ao mesmo tempo. Um destino ambientalmente preservado, mas que não gera renda para quem vive ali, não é turismo sustentável. É apenas conservação sem estratégia econômica.
Os três pilares do turismo sustentável
Na prática de gestão pública, esses três pilares se traduzem em decisões concretas de política de turismo.
Um destino turístico sustentável é aquele em que nenhum desses três pilares compromete os outros dois. É esse equilíbrio, e não a ausência de impacto, que define o conceito.
Turismo de base comunitária, redistribuição de benefício econômico
O turismo de base comunitária é um dos instrumentos mais diretos de aplicação do pilar social.
Nesse modelo, a própria comunidade local organiza e opera a experiência turística. Isso muda a estrutura de captura de valor.
Em vez de a renda se concentrar em grandes redes hoteleiras ou operadoras externas, ela permanece majoritariamente no território.
Como funciona na prática?
O turismo de base comunitária costuma se organizar em torno de associações ou cooperativas locais. Elas definem coletivamente a capacidade de atendimento, o preço e a divisão de receita.
É um modelo mais lento para escalar do que o turismo convencional. Mas tem efeito multiplicador mais concentrado na economia local, o que reduz o risco de evasão de renda para fora do município.
Turismo rural, sustentabilidade aplicada ao interior
O turismo rural cumpre função semelhante ao turismo de base comunitária, mas a partir da estrutura produtiva do campo.
Propriedades rurais que diversificam a receita agrícola com hospedagem, gastronomia típica e vivências de produção agregam renda sem depender exclusivamente de commodities.
Isso reduz a vulnerabilidade econômica de regiões dependentes de um único setor. Grande parte do interior gaúcho tem estrutura produtiva compatível com turismo rural, mas ainda concentra pouco investimento em comparação à Serra Gaúcha.
Isso representa tanto um gargalo de infraestrutura quanto uma oportunidade real de regionalização da receita turística do Estado.
Capacidade de carga, o indicador que evita a descaracterização
Capacidade de carga é o conceito técnico que define o volume máximo de visitantes que um destino suporta sem degradação relevante de seus atributos ambientais, sociais ou estruturais.
Ignorar esse indicador é a causa mais comum de descaracterização de destinos turísticos bem-sucedidos. O sucesso gera fluxo, o fluxo sem gestão gera saturação, e a saturação destrói o próprio ativo que gerou a demanda inicial.
Na prática, aplicar esse conceito significa estruturar zoneamento turístico, condicionar novos empreendimentos a licenciamento ambiental e manter monitoramento contínuo de indicadores como ocupação de infraestrutura, consumo de água e geração de resíduos.
Sem esse tipo de instrumento, a capacidade de carga permanece um conceito acadêmico, sem efeito prático sobre a gestão do destino.
Um exemplo prático de saturação evitável
Destinos que crescem sem monitorar esses indicadores costumam repetir o mesmo roteiro. Primeiro, o sucesso atrai mídia espontânea e investimento privado acelerado.
Depois, a infraestrutura de água, energia e mobilidade não acompanha o ritmo do fluxo. Por fim, a experiência do turista se deteriora, e o próprio destino perde o diferencial que o tornou atrativo.
Monitorar a capacidade de carga desde o início evita esse ciclo, mesmo em destinos que ainda estão em fase de crescimento.
O Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul como case real
Um exemplo real de gestão orientada por esses princípios está no próprio Rio Grande do Sul. Os Aparados da Serra, região que abrange o Parque Nacional criado em 1959 e administrado pelo ICMBio, fazem parte hoje do Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul.
O geoparque foi reconhecido pela UNESCO em abril de 2022, tornando-se um dos três geoparques mundiais do Brasil, ao lado do Araripe, no Ceará, reconhecido em 2006.
O trabalho do geoparque é exatamente o que este artigo defende na teoria: conservar os sítios geológicos da região e, ao mesmo tempo, estruturar o uso turístico sustentável deles, para que a comunidade local também capte parte do benefício econômico gerado pela visitação.
É a prova de que os três pilares, ambiental, social e econômico, não são um exercício teórico. Já existe, dentro do próprio Estado, uma estrutura internacional reconhecida trabalhando exatamente nessa lógica
Turismo sustentável e os objetivos de desenvolvimento sustentável
O turismo sustentável está formalmente ligado à agenda global de desenvolvimento.
A UN Tourism, agência da ONU para o turismo, confirma essa ligação. O setor entrou como meta em três grandes compromissos internacionais.
Gerar empregos e valorizar a cultura local. Medir de verdade o impacto do turismo sobre o ambiente. Usar de forma responsável os recursos do mar e das regiões costeiras.
Na prática, isso tira o turismo sustentável do campo do discurso e coloca o tema em metas que países se comprometem a acompanhar de verdade.
É essa lógica de indicador concreto, e não de bom discurso, que uma gestão pública séria precisa aplicar.
Regionalização como estratégia de sustentabilidade
Concentrar turismo em poucos destinos, como historicamente aconteceu com Gramado e a Serra Gaúcha, é também um problema de sustentabilidade, não apenas de gestão de fluxo.
Veja mais sobre no artigo sobre os destinos além da Serra, regionalizar o turismo distribui pressão sobre os destinos já consolidados. Também distribui renda para regiões historicamente fora do circuito turístico principal.
Regionalização e turismo sustentável resolvem o mesmo problema por ângulos complementares. Um distribui fluxo no espaço, o outro distribui benefício ao longo do tempo.
Por que turismo sustentável também é estratégia econômica?
Em 2025, o Rio Grande do Sul cresceu 11,4 por cento no turismo, mais que o dobro da média nacional, como detalhei no artigo sobre os números do turismo gaúcho em 2025.
Sustentar esse ritmo sem estruturar capacidade de carga e distribuição de benefício é o caminho mais direto para revertê-lo nos próximos anos.
Veja mais no artigo sobre turismo e empreendedorismo, a cadeia do turismo é composta majoritariamente por pequenos e médios negócios.
Turismo sustentável, na prática, é a garantia de que esses negócios continuem existindo daqui a vinte anos, não apenas durante o pico de popularidade de um destino.
A gestão sustentável de destinos com Raphael Ayub
Um exemplo real de gestão orientada a esse equilíbrio é o modelo que implementei em Capão da Canoa, antes de assumir a Secretaria de Turismo do Estado.
A criação de um escritório de gestão integrada permitiu tratar planejamento, execução e fiscalização como um ciclo contínuo, em vez de decisões isoladas. Leia mais sobre no artigo sobre gestão do turismo.
Esses princípios de gestão municipal são a base do que hoje buscamos replicar em outras regiões do Rio Grande do Sul, à medida que a estratégia de regionalização avança.
Sustentabilidade não é freio, é planejamento de longo prazo
Turismo sustentável costuma ser lido como um limite ao crescimento. É o oposto.
É o que garante que o crescimento continue existindo daqui a vinte anos. Destinos que ignoram capacidade de carga, distribuição de benefício e diversificação regional não deixam de crescer.
Eles apenas transferem o custo desse crescimento para o futuro, quando já é mais caro corrigir.
O Rio Grande do Sul tem hoje a oportunidade de estruturar esse modelo antes que a pressão de crescimento se torne um problema, não depois.
Continue acompanhando o blog do Raphael Ayub para entender como essa estratégia de turismo sustentável avança nas próximas semanas, região por região.
Perguntas frequentes
O que é turismo sustentável, na prática?
É o modelo de gestão turística que equilibra a viabilidade ambiental de longo prazo, equidade social na distribuição de renda e sustentabilidade econômica, sem que um desses fatores comprometa os outros dois.
Qual a diferença entre turismo sustentável e turismo de base comunitária?
Turismo sustentável é o princípio mais amplo, que vale para qualquer tipo de turismo. Turismo de base comunitária é uma forma específica de colocar esse princípio em prática, em que a própria comunidade local organiza e capta o benefício econômico da atividade.
Como o turismo rural contribui para a sustentabilidade?
Diversifica a renda de propriedades rurais além da produção agrícola tradicional, reduzindo a dependência de um único setor econômico e agregando valor sem exigir grande escala de investimento.
O que é capacidade de carga em turismo?
É o volume máximo de visitantes que um destino suporta sem degradação relevante de seus atributos ambientais, sociais ou estruturais. É o principal indicador técnico usado para evitar a descaracterização de destinos.
Por que regionalizar o turismo é também uma medida de sustentabilidade?
Porque distribui a pressão de visitação entre múltiplos destinos, reduzindo o risco de saturação nos polos já consolidados e ampliando a distribuição de renda para regiões historicamente fora do circuito turístico principal.
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